Teste qui-quadrado: quando usar
O teste qui-quadrado é o instrumento padrão para responder a uma pergunta muito comum em saúde: "essas duas características estão associadas?". Sexo e desfecho, estágio da doença e tipo de tratamento, presença de um fator e ocorrência de uma complicação. Mas há uma condição técnica que decide se ele é válido — e quando trocá-lo pelo teste exato de Fisher.
Para que serve
O qui-quadrado de independência avalia a associação entre duas variáveis categóricas. Os dados são organizados em uma tabela de contingência, que cruza as categorias das duas variáveis. Exemplo clássico (tabela 2×2):
| Complicação: sim | Complicação: não | |
|---|---|---|
| Técnica A | 12 | 88 |
| Técnica B | 5 | 95 |
A pergunta: a taxa de complicação difere entre as técnicas, ou as diferenças observadas são compatíveis com o acaso?
Como funciona
O teste compara as frequências observadas (os números que você coletou) com as frequências esperadas — as que ocorreriam se não houvesse nenhuma associação entre as variáveis. Quanto maior a distância entre observado e esperado, maior a estatística qui-quadrado e menor o valor de p. Um p < 0,05 indica evidência de associação.
Importante: o qui-quadrado diz se há associação, mas não quão forte ela é. Para isso, reporte também uma medida de efeito — proporções, diferença de proporções ou odds ratio / risco relativo — com intervalo de confiança.
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A regra das frequências esperadas
O qui-quadrado é um teste aproximado, e essa aproximação só vale quando as células da tabela têm contagens suficientes. A diretriz mais usada exige:
- Todas as frequências esperadas ≥ 1; e
- No máximo 20% das células com frequência esperada < 5.
Repare que a regra é sobre as frequências esperadas, não as observadas — um detalhe que muita gente confunde. Em uma tabela 2×2, isso na prática significa que nenhuma célula esperada deve cair abaixo de 5. Quando a condição não é atendida, o valor de p do qui-quadrado fica pouco confiável.
Quando trocar pelo teste exato de Fisher
É exatamente nesses casos de frequências esperadas baixas — típicos de amostras pequenas — que entra o teste exato de Fisher. Em vez de uma aproximação, ele calcula a probabilidade exata da configuração observada. Por isso é o teste de escolha para tabelas 2×2 com poucos dados. Com amostras grandes, o cálculo exato fica pesado, mas aí o qui-quadrado já é apropriado — então, na prática, um cobre a lacuna do outro.
Erros comuns
- Aplicar a variável errada. O qui-quadrado é para categóricas; não use em desfecho contínuo categorizado sem necessidade — veja qual teste usar.
- Ignorar a regra das frequências esperadas e reportar um qui-quadrado inválido em vez do Fisher.
- Confundir com dados pareados. Para a mesma pessoa medida antes e depois (categórica), o teste correto é o McNemar, não o qui-quadrado de independência.
- Parar no valor de p sem reportar a magnitude da associação.
Como reportar
Descreva o teste usado e por quê (qui-quadrado ou Fisher, conforme as frequências esperadas), apresente as proporções por grupo e a medida de associação com seu intervalo de confiança. Diretrizes de relato como o checklist STROBE esperam que os métodos estatísticos e o tratamento de cada variável sejam descritos de forma transparente.
Perguntas frequentes
Quando usar o teste qui-quadrado?
Para avaliar associação entre duas variáveis categóricas em uma tabela de contingência, comparando frequências observadas e esperadas.
Qual a regra das frequências esperadas?
Todas ≥ 1 e no máximo 20% abaixo de 5. Quando isso não vale, prefira o teste exato de Fisher.
Quando usar o teste exato de Fisher?
Quando as frequências esperadas são baixas, sobretudo em tabelas 2×2 com amostra pequena. Ele calcula a probabilidade exata.
O qui-quadrado serve para dados pareados?
Não. Para categóricas pareadas use o teste de McNemar.
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