Qual teste estatístico usar
"Qual teste estatístico devo usar?" é provavelmente a dúvida mais frequente de quem está fechando um TCC, uma dissertação ou um artigo. A boa notícia: a escolha não é uma questão de gosto — ela decorre logicamente de três perguntas sobre os seus dados. Este roteiro mostra como chegar ao teste certo sem chutar.
As três perguntas que definem o teste
- Que tipo é a variável de desfecho? Contínua (peso, pressão, idade), categórica (sim/não, estágio), ordinal (escala de dor) ou tempo até um evento (sobrevida).
- Quantos grupos você compara? Um, dois ou três ou mais.
- As observações são independentes ou pareadas? Pessoas diferentes em cada grupo (independentes) ou a mesma pessoa medida antes e depois (pareadas/repetidas).
Com essas três respostas, o teste praticamente se escolhe sozinho.
Paramétrico ou não paramétrico
Para desfechos contínuos, ainda há uma bifurcação. Os testes paramétricos (teste t, ANOVA) assumem que os dados — mais precisamente, os resíduos — seguem distribuição aproximadamente normal e, em alguns casos, variâncias semelhantes entre grupos. Quando esses pressupostos não se sustentam, usa-se a versão não paramétrica correspondente, que se baseia em postos (rankings) e não exige normalidade. Tratamos essa decisão em detalhe no informativo sobre teste t ou Mann-Whitney.
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Tabela de decisão
Use a tabela abaixo como mapa. As colunas paramétrica/não paramétrica valem para desfechos contínuos; para categóricas, a coluna única já indica o teste.
| Situação | Paramétrico | Não paramétrico |
|---|---|---|
| 2 grupos independentes (desfecho contínuo) | Teste t para amostras independentes | Mann-Whitney |
| 2 medidas pareadas (mesmo indivíduo) | Teste t pareado | Wilcoxon |
| 3+ grupos independentes | ANOVA de uma via | Kruskal-Wallis |
| 3+ medidas repetidas | ANOVA de medidas repetidas | Friedman |
| Associação entre 2 categóricas | Qui-quadrado (ou Fisher se frequências baixas) | |
| Associação entre 2 contínuas | Correlação de Pearson | Correlação de Spearman |
| Prever desfecho binário | Regressão logística | |
| Tempo até um evento | Kaplan-Meier + log-rank; Cox | |
Cuidado com as comparações múltiplas
Quando há três ou mais grupos e a ANOVA (ou Kruskal-Wallis) dá significativa, a pergunta natural é "quais grupos diferem?". Aí entram os testes post hoc com correção para múltiplas comparações. Fazer vários testes t dois a dois sem correção infla o erro tipo I — um descuido comum.
Erros frequentes na escolha
- Tratar dado pareado como independente (ou vice-versa). Antes/depois no mesmo paciente é pareado.
- Usar qui-quadrado em desfecho contínuo categorizado sem necessidade, perdendo informação.
- Ignorar a estrutura dos dados — medidas repetidas, agrupamento por centro ou por família exigem modelos que considerem essa dependência.
- Trocar de teste até achar p < 0,05. O plano de análise deve ser definido antes; verificar pressupostos é legítimo, garimpar significância (p-hacking) não.
Defina o plano antes de coletar
A melhor hora de escolher o teste é no plano de análise estatística, junto com o cálculo amostral — não depois que os dados chegaram. Diretrizes de relato como o checklist STROBE/CONSORT pedem que os métodos estatísticos sejam descritos com clareza, incluindo como pressupostos foram verificados. Decidir cedo evita o viés de escolher o teste que dá o resultado mais conveniente.
Perguntas frequentes
Como escolho entre paramétrico e não paramétrico?
Pelo tipo de variável e pelos pressupostos. Em desfechos contínuos, testes paramétricos assumem normalidade aproximada; quando ela não se sustenta, usa-se a versão não paramétrica.
O que define qual teste usar?
Três perguntas: o tipo da variável de desfecho, o número de grupos e se as observações são independentes ou pareadas.
Qui-quadrado serve para qualquer variável?
Não. Ele compara variáveis categóricas. Para desfechos contínuos use teste t, ANOVA ou suas versões não paramétricas.
Posso escolher o teste depois de ver os dados?
O plano deve ser definido antes. Verificar pressupostos é legítimo; trocar de teste só porque um deu significativo não é.
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