Número necessário para tratar (NNT): como calcular
"O tratamento reduziu o risco em 30%." Soa impressionante — mas 30% de quê? O número necessário para tratar (NNT) traduz o efeito de uma intervenção em algo que clínico e paciente entendem de imediato: quantas pessoas é preciso tratar para evitar um evento ruim. É uma das medidas mais úteis para comunicar benefício, e uma das mais fáceis de calcular — desde que você parta do risco absoluto, não do relativo.
Risco absoluto, antes do NNT
Imagine um ensaio em que o desfecho desfavorável ocorre em 20% do grupo controle e em 10% do grupo tratado. Duas medidas resumem a diferença:
- Redução de risco absoluto (RRA) = 20% − 10% = 10 pontos percentuais (ou 0,10). É a diferença bruta entre os riscos.
- Redução de risco relativo (RRR) = (20% − 10%) / 20% = 50%. É a diferença proporcional ao risco do controle.
Repare como o mesmo resultado vira "50%" na forma relativa e "10 pontos" na forma absoluta. Os dois estão certos, mas a versão relativa quase sempre soa maior — e é por isso que materiais promocionais preferem citá-la. O NNT nasce da versão absoluta.
A conta do NNT
O NNT é simplesmente o inverso da redução de risco absoluto:
NNT = 1 / RRA (com a RRA em proporção, não em porcentagem).
No exemplo, RRA = 0,10, então NNT = 1 / 0,10 = 10. A leitura: é preciso tratar, em média, 10 pacientes para evitar um desfecho desfavorável a mais — durante o mesmo período de seguimento do estudo. Quanto menor o NNT, mais eficiente o tratamento. Um NNT de 10 é bem mais favorável que um de 100.
Como o NNT é uma estimativa, ele também tem incerteza: reporte sempre seu intervalo de confiança de 95%, obtido invertendo os limites do IC da RRA. Quando a diferença de risco não é estatisticamente significativa, o IC do NNT pode incluir o infinito — sinal de que o benefício não está bem estabelecido.
A Evidens calcula RRA, RRR, NNT e NNH com intervalos de confiança e monta as tabelas do artigo — você continua único autor.
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Por que o NNT comunica melhor
O grande risco de reportar só o efeito relativo é o descolamento do risco de base. Uma RRR de 50% impressiona, mas significa coisas muito diferentes conforme o risco inicial:
- Risco de base 20% → 10%: RRA de 10 pontos, NNT = 10.
- Risco de base 2% → 1%: mesma RRR de 50%, mas RRA de apenas 1 ponto, NNT = 100.
O mesmo "50% de redução" exige tratar 10 ou 100 pacientes dependendo de quão arriscada era a situação. O NNT expõe essa diferença que o risco relativo esconde. É a mesma lógica que separa odds ratio de risco relativo: medidas relativas precisam do contexto absoluto para serem interpretadas.
NNH: o outro lado
Todo tratamento tem riscos. O análogo do NNT para desfechos prejudiciais é o NNH (número necessário para causar dano): quantos pacientes precisam ser tratados para que um a mais sofra um evento adverso. Calcula-se como o inverso do aumento de risco absoluto. Comparar NNT e NNH dá uma noção honesta do balanço benefício–dano: um NNT de 15 para prevenir um evento grave, com NNH de 200 para um efeito adverso leve, descreve um tratamento atraente.
Cuidados ao usar
O NNT é específico do desfecho, da população e do tempo de seguimento do estudo. Um NNT de "20" sem dizer "para evitar AVC em 5 anos" é incompleto. NNTs de estudos diferentes (com horizontes e riscos de base distintos) não são diretamente comparáveis. Diretrizes de relato de ensaios como o checklist CONSORT recomendam apresentar tanto medidas absolutas quanto relativas do efeito — exatamente para que o leitor enxergue o benefício real, e não só o número mais vistoso.
Perguntas frequentes
Como se calcula o NNT?
É o inverso da redução de risco absoluto: NNT = 1 / RRA, com a RRA em proporção. Se a RRA é 0,10, o NNT é 10.
O que significa um NNT de 25?
Que, em média, é preciso tratar 25 pacientes para evitar um desfecho desfavorável a mais, no período do estudo. Quanto menor, melhor.
Qual a diferença entre NNT e risco relativo?
O risco relativo é proporcional e pode parecer grande com benefício absoluto pequeno. O NNT, vindo do risco absoluto, mostra quantos pacientes de fato se beneficiam.
O que é NNH?
Número necessário para causar dano: quantos pacientes tratar para que um sofra um evento adverso a mais. É o inverso do aumento de risco absoluto.
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