Medidas de efeito

Número necessário para tratar (NNT): como calcular

Equipe Evidens · 11 de junho de 2026 · leitura de 6 min

"O tratamento reduziu o risco em 30%." Soa impressionante — mas 30% de quê? O número necessário para tratar (NNT) traduz o efeito de uma intervenção em algo que clínico e paciente entendem de imediato: quantas pessoas é preciso tratar para evitar um evento ruim. É uma das medidas mais úteis para comunicar benefício, e uma das mais fáceis de calcular — desde que você parta do risco absoluto, não do relativo.

Risco absoluto, antes do NNT

Imagine um ensaio em que o desfecho desfavorável ocorre em 20% do grupo controle e em 10% do grupo tratado. Duas medidas resumem a diferença:

Repare como o mesmo resultado vira "50%" na forma relativa e "10 pontos" na forma absoluta. Os dois estão certos, mas a versão relativa quase sempre soa maior — e é por isso que materiais promocionais preferem citá-la. O NNT nasce da versão absoluta.

A conta do NNT

O NNT é simplesmente o inverso da redução de risco absoluto:

NNT = 1 / RRA (com a RRA em proporção, não em porcentagem).

No exemplo, RRA = 0,10, então NNT = 1 / 0,10 = 10. A leitura: é preciso tratar, em média, 10 pacientes para evitar um desfecho desfavorável a mais — durante o mesmo período de seguimento do estudo. Quanto menor o NNT, mais eficiente o tratamento. Um NNT de 10 é bem mais favorável que um de 100.

Como o NNT é uma estimativa, ele também tem incerteza: reporte sempre seu intervalo de confiança de 95%, obtido invertendo os limites do IC da RRA. Quando a diferença de risco não é estatisticamente significativa, o IC do NNT pode incluir o infinito — sinal de que o benefício não está bem estabelecido.

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Por que o NNT comunica melhor

O grande risco de reportar só o efeito relativo é o descolamento do risco de base. Uma RRR de 50% impressiona, mas significa coisas muito diferentes conforme o risco inicial:

O mesmo "50% de redução" exige tratar 10 ou 100 pacientes dependendo de quão arriscada era a situação. O NNT expõe essa diferença que o risco relativo esconde. É a mesma lógica que separa odds ratio de risco relativo: medidas relativas precisam do contexto absoluto para serem interpretadas.

NNH: o outro lado

Todo tratamento tem riscos. O análogo do NNT para desfechos prejudiciais é o NNH (número necessário para causar dano): quantos pacientes precisam ser tratados para que um a mais sofra um evento adverso. Calcula-se como o inverso do aumento de risco absoluto. Comparar NNT e NNH dá uma noção honesta do balanço benefício–dano: um NNT de 15 para prevenir um evento grave, com NNH de 200 para um efeito adverso leve, descreve um tratamento atraente.

Cuidados ao usar

O NNT é específico do desfecho, da população e do tempo de seguimento do estudo. Um NNT de "20" sem dizer "para evitar AVC em 5 anos" é incompleto. NNTs de estudos diferentes (com horizontes e riscos de base distintos) não são diretamente comparáveis. Diretrizes de relato de ensaios como o checklist CONSORT recomendam apresentar tanto medidas absolutas quanto relativas do efeito — exatamente para que o leitor enxergue o benefício real, e não só o número mais vistoso.

Perguntas frequentes

Como se calcula o NNT?

É o inverso da redução de risco absoluto: NNT = 1 / RRA, com a RRA em proporção. Se a RRA é 0,10, o NNT é 10.

O que significa um NNT de 25?

Que, em média, é preciso tratar 25 pacientes para evitar um desfecho desfavorável a mais, no período do estudo. Quanto menor, melhor.

Qual a diferença entre NNT e risco relativo?

O risco relativo é proporcional e pode parecer grande com benefício absoluto pequeno. O NNT, vindo do risco absoluto, mostra quantos pacientes de fato se beneficiam.

O que é NNH?

Número necessário para causar dano: quantos pacientes tratar para que um sofra um evento adverso a mais. É o inverso do aumento de risco absoluto.

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Equipe Evidens · publicado em 11 de junho de 2026 · Conheça nossos serviços